MINHA HISTÓRIA!!! Ela prometeu voltar e Nunca mais voltou !!  Lucilene Santiago 24 de outubro de 1994 – Vila palmeira/São Luís.

São Luís, 24 de outubro de 1994. VILA PALMEIRA, PRIMEIRA TRAVESSA DO RIBEIRÃO! Lucilene Santiago morta aos 29 anos de idade.

Era 24 de outubro de 1994. São Luís respirava o barulho da Avenida dos Franceses, enquanto minha mãe, Lucilene Santiago, tentava respirar um pouco de vida. Depois de tantos dias de luta, depois de tantos nãos, depois de tanto peso, ela havia deixado os cinco filhos espalhados pelo mundo, cada um entregue ao colo de alguém, porque já não tinha mais forças para colocar comida na mesa.

Naquele dia, minha mãe saiu para se aliviar da dor. A dor de não poder ser mãe como queria, a dor de carregar a pobreza nos ombros, a dor de lavar roupas, fazer unhas, limpar casas e, ainda assim, não conseguir. Talvez quisesse apenas sentir-se viva por algumas horas.

Mas a vida foi interrompida de forma brutal. Um carro desgovernado, guiado por um homem supostamente embriagado, subiu a calçada e levou com ele não só o corpo da minha mãe, mas também os sonhos que ela ainda guardava. Arrastou seu corpo pela avenida dos Franceses, derrubou um poste, arrancou da barriga de uma amiga grávida o bebê que já estava prestes de apenas 4 meses. Foi o fim.

Minha mãe foi enterrada sem que ninguém nos dissesse. Nós, os filhos, ficamos sem saber que ela já não existia. Vivíamos em Bom Jesus, no município de Lima Campos, e só muito tempo depois, em Codó, chegou a notícia — não como notícia, mas como zombaria. Um parente disse, em tom de riso:

— A mãe desses meninos já morreu faz é tempo. Já está enterrada.

Eu tinha seis anos. Não chorei, não gritei, não perguntei nada. Só silêncio. Silêncio de quem ainda não entendia, mas já sabia. Meu irmão chorou e disse, “a nossa mãe morreu!”

Pouco antes de partir, lembro do que ela me disse:

— Ramyria, cuida dos teus irmãos. Lava as roupinhas deles. Estou indo, mas volto já.

Mas ela nunca voltou.

O tempo passou, e descobrimos que houve uma indenização. Descobrimos que havia uma pensão. Descobrimos que tudo foi desviado pelos Tios, Zé Vicente, Joel e João Picola. Nós, os filhos, ficamos sem nada. Nem mãe, nem justiça, nem pão.

Minha mãe também carregava outra cruz: a de cuidar da minha avó, que era alcoólatra. Todos os dias a buscava caída nas vielas de São Luís, trazendo-a de volta para casa. Depois da morte dela, ninguém mais cuidou. Meses depois, minha avó também morreu, sozinha, abandonada.

Trinta anos se passaram. Ainda não sei o nome do motorista que matou minha mãe. Não sei qual rádio ou TV noticiou o acidente. Não sei onde ficaram os registros. Não conheci o pai da minha mãe, meu avô. Não sei de tanta coisa…

Mas sei onde ela está: no cemitério do Tibiri, em São Luís. Só que nunca consegui ir até lá. Trinta anos me preparando, e ainda não encontrei quem segurasse minha mão para enfrentar o túmulo dela.

Vivo com a dor indestrutível de não ter tido despedida. Mas vivo, sobretudo, com a lembrança. A lembrança daquela mulher que prometeu voltar e nunca mais voltou.

Meu relato é de uma força imensa, mas também de uma dor que atravessa gerações. Não é apenas a tragédia, mas também a injustiça, o abandono e as perguntas que nunca foram respondidas nesses 30 anos.

Um acidente brutal e o apagamento da sua existência tornam essa memória ainda mais dolorosa.

A injustiça com a gente ,os filhos, deixados sem informação sobre a morte, sem o direito ao luto, e ainda privados da indenização e da pensão que pertenciam a nós na época.

A busca por respostas – o desejo de descobrir quem foi o motorista, qual a cobertura da imprensa, onde estão os registros oficiais, e até mesmo as raízes familiares dela. Essa busca se confunde com a minha própria identidade e história de vida.

E agora o que eu faço?

Essa é Lucilene Santiago batizando um dos filhos

Em busca da história da minha mãe e da verdade que foi calada.

Assina sua  filha:  RAMYRIA SANTIAGO DOS SANTOS ALBUQUERQUE

 

Um Comentário

  1. Li a sua história e entendo perfeitamente a sua dor! Que Deus, na sua infinita bondade cuide sempre de você. E que Ele traga a justiça divina sobre as pessoas da tua família, que lesaram a sua infância!

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